O segmento de 400 cilindradas ganha dois titãs de peso no mercado brasileiro, que, apesar de virem da mesma origem geográfica, entregam propostas sensoriais opostas. De um lado, a Royal Enfield Guerrilla 450, uma roadster de torque massivo; do outro, a Bajaj Dominar NS400Z, uma streetfighter nata que aposta na tecnologia e na leveza.

Testamos ambas no limite para responder: qual entrega mais usabilidade e diversão pelo seu dinheiro?
O mercado brasileiro de motocicletas vive um momento de ruptura com a chegada simultânea de dois projetos indianos, a Royal Enfield Guerrilla 450 e a Bajaj Dominar NS400Z, que colocam em xeque a hegemonia das marcas tradicionais e estabelecem um novo patamar de “entrega por real investido”.

Não estamos falando apenas de motos de entrada, mas de máquinas que trazem tecnologias de ponta, como motores modernos com arrefecimento líquido, embreagem assistida e painéis digitais de última geração. No entanto, embora compartilhem a mesma faixa de cilindrada, a experiência de pilotagem entre elas é um abismo de sensações.

O coração da batalha: torque ou elasticidade
Começando pelo propulsor, a Royal Enfield introduz no Brasil a sua plataforma K, inaugurada com a Himalayan 450. O motor Sherpa é um marco para a marca: um monocilíndrico de 452 cm³ com arrefecimento líquido que gera 40 cv de potência. Mas os números frios não contam a história toda. O que define a Royal Enfield Guerrilla 450 é o seu torque de 4,0 kgf.m, e mais especificamente, a forma como ele é entregue. Ao girar o punho, percebe-se que 90% do torque já está disponível às 3.000 rpm. Na prática, isso significa uma moto extremamente vigorosa em baixas e médias rotações, ideal para saídas de semáforo e ultrapassagens em estradas sem a necessidade de reduções constantes no câmbio de seis marchas.

Já a Bajaj Dominar NS400Z utiliza o conhecido motor de 373 cm³ da Dominar 400, também com 40 cv de potência, mas com um caráter dinâmico oposto. O torque de 3,57 kgf.m surge de forma mais progressiva e exige que o piloto mantenha o conta-giros em patamares elevados para extrair diversão. Se a Guerrilla é “força bruta” desde cedo, a NS400Z é uma “gritadora” que brilha no topo da faixa de rotação, herdando o DNA das streetfighters que amam a pilotagem de ataque. A tocada da Bajaj Dominar NS400Z é muito semelhante a da KTM 390 Duke, com trocas de marchas rápidas e motor com giro mais alto.

Ciclística e a arte de fazer curvas
No campo da ciclística, a Bajaj deu um passo ousado com a NS400Z. Ao reduzir o entre-eixos em 109 mm e aliviar o peso em 18 kg em relação à Dominar 400 convencional, a marca criou uma moto que muda de direção com uma rapidez desconcertante. O uso de uma suspensão dianteira invertida (USD) confere à frente uma rigidez que agrada quem busca precisão milimétrica. No entanto, essa precisão encontra um limite nos pneus MRF de série. Durante o teste, ficou claro que esses pneus carecem de progressividade; em determinados ângulos de inclinação, eles transmitem uma sensação de insegurança, fazendo a moto “cair” para dentro da curva de forma não linear, exigindo correção imediata do piloto.

A Guerrilla 450, por sua vez, aposta no equilíbrio entre conforto e agilidade. Apesar de utilizar bengalas Showa convencionais de 43 mm, a calibragem é soberba. A moto é 12 kg mais leve que a Himalayan e possui um entre-eixos 70 mm menor, o que a torna extremamente leve nas mudanças de direção sem perder a estabilidade característica da marca. Os pneus Ceat de uso misto, montados em rodas de 17 polegadas, absorvem bem as irregularidades do asfalto urbano, conferindo um rodar mais macio. Contudo, em uma pilotagem mais “faca nos dentes” na pista, é possível sentir o limite de aderência desses pneus compostos, que tendem a escorregar levemente sob fortes acelerações com a moto inclinada.

Ergonomia e vida a bordo
A ergonomia é onde a Royal Enfield Guerrilla 450 realmente brilha para o uso diário. O triângulo formado pelo assento baixo, (a 780 mm do solo), guidão e pedaleiras, permite um encaixe natural e relaxado. Você sente que pode passar horas sobre a moto sem fadiga, o que a torna uma excelente companheira para viagens médias. O painel TFT circular, compartilhado com a Himalayan, é um espetáculo à parte, oferecendo espelhamento do Google Maps que facilita a navegação real sem a necessidade de suportes extras para celular.

Na NS400Z, a proposta é agressiva. As pedaleiras recuadas e o guidão baixo forçam o tronco do piloto para frente, sobre o tanque, carregando o peso no eixo dianteiro. É a posição clássica de ataque, perfeita para uma sessão de curvas, mas que cobra seu preço em trajetos urbanos longos ou congestionamentos. O painel TFT da Bajaj é moderno e visualmente atraente, compondo o design feroz reforçado pelo farol em LED com assinatura em “Z”.

Tecnologia e segurança
No quesito eletrônica, a Bajaj não economizou. A NS400Z vem equipada com acelerador eletrônico (ride-by-wire) e quatro modos de pilotagem (Rain, Road, Sport e Off-Road). O modo Sport permite desligar o controle de tração, enquanto o modo Off-Road desabilita o ABS traseiro, permitindo uma condução mais livre. Essa eletrônica é um diferencial competitivo enorme, oferecendo uma camada extra de segurança que a Guerrilla ainda não possui, já que a Royal se mantém mais purista, focando no ABS de dois canais assinado pela Bybre.
Os freios de ambas são eficientes, mas com comportamentos distintos. Na NS400Z, o sistema inicialmente parece “borrachudo”, exigindo mais pressão no manete, mas melhora significativamente após algumas frenagens mais fortes, ganhando tato e mordida. Na Guerrilla, o sistema Bybre é potente desde o primeiro toque, com um ABS bem calibrado que não intervém de forma intrusiva antes da hora.
O dilema da autonomia
Um ponto crítico revelado no teste é a autonomia. A Guerrilla 450 possui um tanque de apenas 11 litros (seis a menos que a Himalayan). Mesmo sendo um motor econômico, isso limita as pernas da moto em viagens longas, exigindo paradas mais frequentes para abastecimento. A NS400Z, com seu tanque de 12 litros e proposta urbana, sofre menos com essa crítica, mas ambas exigem planejamento do piloto em rotas estradeiras para não ter surpresas com pane seca.

Escolha difícil
No fim das contas, a Bajaj Pulsar NS400Z, que custa R$ 26.990, ganha no cérebro, mas a Royal Enfield Guerrilla 450, que custa R$29.490, ganha no coração. Se você é um piloto que valoriza a ficha técnica, quer eletrônica de ponta para se sentir seguro e busca o menor preço por cavalo vapor, a Bajaj é a escolha lógica e imbatível.

Porém, a Guerrilla entrega algo que os números não explicam: aquele torque bruto que te faz sorrir a cada saída de semáforo e uma ergonomia tão bem acertada que parece que a moto foi moldada para o seu corpo.

Eu ficaria com a Guerrilla 450 pela entrega de força imediata e pelo visual mais sofisticado, em contrapartida, escolheria a NS400Z para ter uma “mini streetfighter” tecnológica, além de extremamente ágil e divertida, por um preço muito mais agressivo.









