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Testes
Harley-Davidson Fat Boy 114: Evolução necessária

7 Minutos de leitura

  • Publicado: 28/03/2019
  • Atualizado: 28/03/2019 às 13:45
  • Por: Marcelo Barros

Voltamos para a estrada, desta vez, cheios de estilo e atraindo olhares atentos por onde passamos. O motivo não é que ficamos bonitos, mas sim porque estamos com a Harley-Davidson Softail Fat Boy 114, o icônico modelo que estreou em 1990, criado para combater o avanço das motos custom japonesas no mercado americano.

Um ano depois, ganhou os cinemas ao ser usada pelo protagonista do filme “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final”, o que rendeu ao modelo imensa popularidade. A origem do nome Fat Boy (menino gordo) não tem uma versão oficial. Existe uma lenda sobre o nome ser a combinação das bombas atômicas “Fat Man” e “Little Boy”, usadas pelos Estados Unidos, em agosto de 1945, na Segunda Guerra Mundial, contra o Japão. O mais provável é que o nome seja baseado na aparência larga da moto, quando vista de frente. Simples assim…

Mas vamos ao que interessa, o modelo 2018.  Existem, como de costume, muitas opções de cor (cinco no total) e escolhemos a dedo a vermelha, que parece ressaltar ainda mais todos os detalhes da moto. O acabamento geral da moto melhorou e as mudanças no design, como o belíssimo farol em LED, fazem dela um alvo fácil de elogios e de fotos. Bastou parar a moto ao longo do nosso percurso para alguém sacar do bolso o celular e fazer um registro. Sem dúvidas, é sim uma belíssima moto.

A moto vem com sensor de presença, para ligá-la e ativar o motor. Basta estar perto da moto com ele, que você consegue usá-la. Mexeu na moto sem ele, o alarme, que é bem barulhento, é acionado. Para travar o guidão ao estacioná-la, você usa a chave que vem junto com a moto. A trava está do lado direito dela, perto da mesa, que segura o guidão. Do lado esquerdo, curiosamente uma tomada USB de 5V, que quase passou despercebida no teste. Útil para alimentar um GPS ou o celular durante a viagem — mas ele tem que ficar em algum suporte que você comprar ou no seu bolso, pois na Fat Boy não existem os variados compartimentos das motos da linha Touring, como a icônica Electra Glide.

Partindo para a estrada, a posição de pilotagem é confortável. Mas rodando a 120 km/h, a ausência total de proteção aerodinâmica gera certo desconforto quando o vento está mais forte, situação que enfrentamos nessa viagem-teste. A posição do painel é sobre o tanque e o display digital está com melhor visibilidade. A operação do display é pelo botão no punho esquerdo da moto, acima do botão da buzina. Um detalhe.

Para nós, seria interessante que os botões da buzina e painel fossem invertidos, pois em caso de uma situação emergencial onde a buzina ajudaria, a ergonomia do punho não é favorável e apertamos o botão do painel. Um detalhe, mas sentimos que poderia ser melhor. O padrão dos botões de seta da Harley-Davidson também é particular. A seta direita é no punho direito e a esquerda no respectivo punho. Nos primeiros quilômetros, você estranha, mas, obviamente, o proprietário se acostuma e isso não incomoda.

Começamos com o ajuste da suspensão de fábrica. A dianteira não tem ajustes, mas a traseira, monoamortecida, tem um manípulo de fácil acesso, do lado direito da moto, que permite o ajuste em instantes. Na longa reta da Rodovia dos Imigrantes, descendo para o litoral paulista, rodamos confortáveis com a pré-carga macia.

Mas ao chegar às curvas da serra em São Sebastião, litoral norte paulista, foi necessário parar e endurecer a traseira. Estava na posição 2, sendo 1 a mais macia e 5 a mais dura, e achamos um ótimo ajuste deixando na posição 4, quando a moto ficou muito mais na mão e percorrendo diferentes traçados de curva com precisão e estabilidade, garantindo o prazer na pilotagem. As pedaleiras estão bem posicionadas e rasparam no chão pouquíssimas vezes no percurso, quando já estávamos nos divertindo bastante, então, pelo menos na Fat Boy, você que é viciado em curvas está bem servido.

Uma usina de torque

A Fat Boy tem duas opções de motor, o 107 ou o 114. Escolhemos o com maior desempenho e gostamos, pois está mais alinhado as grandes dimensões da moto. Responde bem, com a tradicional usina de torque sendo entregue no largo pneu traseiro já em baixas rotações. A marca não declara a potência máxima de suas motos, mas no dinamômetro, conseguimos essa informação. Na Fat Boy, tudo acontece antes dos 5 000 rpm, com 3 130 rpm, o motor joga apenas 12,7 quilos de torque na roda. Em 4 560 rpm, o pico de potência, com 70,86 cv.

Para um motor de mais de 1.500 cm³, analisando puramente os dados, é pouco, mas sinceramente, pouco importa em uma moto com essa proposta. Mais cavalos de potência não a deixariam mais prazerosa. Talvez, até seria o contrário, mais complicado para andar, pelo peso elevado e o longo comprimento. A potência específica é bem baixa, mas após andar bastante, como no Superteste, entendemos por que a marca não trabalha com os dados de potência. Lembrando que a rival Indian também tem o mesmo procedimento. No Brasil, ainda existe um senso de que quanto mais potência, melhor a moto. Isso vale para esportivas, não para custom.

O motor vibra e esquenta menos, o que é ótimo, porém, do lado esquerdo da moto, o ressalto do câmbio é alto e a perna encosta nele muitas vezes e existe o risco de se queimar, ou no mínimo se assustar e acabar derrubando a moto parada. Nos acostumamos durante o teste a parar com as pernas mais para frente, evitando o contato com o calorento câmbio, que tem a quinta e a sexta marchas trabalhando apenas para aliviar o motor (overdrive). Nele, os engates continuam pouco suaves, e a embreagem, pesada.

Bastou o primeiro semáforo segurando a embreagem, para lembrar-se dessa “característica” que as Harley-Davidson poderiam perder, para maior conforto do motociclista. Os engates melhoraram em comparação aos do modelo anterior, mas uma embreagem suave e leve e engates de marcha mais amanteigados não fariam a moto ser menos prazerosa do que é, mas apenas mais confortável. Acredito que o argumento seja que é uma moto para estrada, então pouco se trocam as marchas. Mesmo assim, eu espero ver embreagem assistida em breve nestas grandes custom.

No trecho mais travado do nosso percurso, a subida de serra entre Ubatuba e São Luiz do Paraitinga, onde o longo entre-eixos da Fat Boy já faz o motociclista ter mais cuidado ao entrar nas curvas bem fechadas, lidamos com um desafio extra: a chuva. Felizmente os pneus Michelin Scorcher 11 provaram que vão tão bem no seco quanto no molhado e garantiram minha segurança mesmo nas curvas travadas dessa traiçoeira serra. Chegando ao topo, seguimos com piso molhado e acompanhados por densa neblina. Hora de redobrar o cuidado e andar com cautela, aproveitando o conforto da moto.

Cai a noite e uma das novidades da nova Fat Boy mostra seu poder de fogo, o novo farol, todo em LED, que, além de muito bonito, representa um notável ganho no poder de iluminação em vias mal iluminadas. Que todas as motos em um futuro breve possam sair de fábrica com LED. Iniciando o segundo dia, sol forte e céu aberto. Felizmente o calor do motor praticamente não incomoda e seguimos tranquilos. Os freios, com ABS, têm boa modulação. Realizamos algumas frenagens para sentir a potência e dosagem nas duas rodas, em diferentes velocidades, e o sistema está bem calibrado para garantir a segurança em qualquer situação – é claro, se o motociclista dominar a técnica de pilotagem e frear corretamente.

Ainda sobre pilotagem, há uma lenda que motos custom grandes não são boas para pilotar e manobrar, mas existem bons cursos de pilotagem, especializados em motos custom, nos quais você pode comprovar que isso não é verdade. Na própria Harley-Davidson são organizados eventos durante o ano, nos quais são realizados desafios de habilidade em circuitos montados com cones. Uma busca rápida na internet e você encontrará milhares de vídeos impressionantes, que podem inspirar você a andar nessas imponentes motos. Não deixa de ser um belo desafio explorar os limites de pilotagem de uma motocicleta como a Fat Boy e seu porte avantajado.

A marca praticamente reina na categoria custom no Brasil, e por mérito, principalmente agora com essa notável linha Softail com melhorias realmente efetivas, que vão muito além do sonho que é vendido pelo poderoso departamento de marketing da marca. A Fat Boy é uma moto de pilotagem prazerosa, mesmo com suas proporções continentais e elevado peso. Ela convence e é justificada a fama que o modelo tem. Não me lembro de uma moto que avaliei que recebeu tantos elogios durante a viagem-teste.

A Fat Boy tem garantia de dois anos e está disponível nas concessionárias, com preço a partir de R$ 78.850, que varia de acordo com a pintura. Para quem já é proprietário de uma Fat Boy, a nova tem evolução significativa e basta um test ride para você ficar convencido que vale trocar a antiga pela nova. Para quem sempre sonhou com o modelo, não vejo momento melhor do que esse para realizar. A moto está realmente muito boa!

Conclusão

Fiquei bem curioso pelo opinião de quem havia andado. Agora, com a moto em mãos, icônico modelo pela aparição no filme Exterminador do Futuro 2, pude comprovar sua fama e entender mais sobre o que atrai tantos motociclistas. Para curtir uma moto como a Fat Boy, alivie o acelerador, sinta o ronco grave, as batidas do motor e os quilômetros passando, tudo sem agitação, sem ansiedade. Quem compra uma Harley-Davidson quer desestressar, quer curtir e relaxar com sua moto e a Fat Boy cumpre bem esse papel.