O “sonho americano” da Indian Motorcycle acaba de sofrer um choque de realidade industrial. A separação da Polaris, que prometia liberdade, começou com um corte profundo na carne, mostrando que a independência tem um preço alto e, muitas vezes, doloroso para quem está na linha de montagem.

A mudança de controle da Indian Motorcycle começou a produzir efeitos concretos — e duros — muito mais cedo do que o mercado previa. A decisão de encerrar a unidade de Osceola, no Wisconsin, marca o primeiro impacto visível da saída da marca do perímetro direto da Polaris. Este movimento expõe o lado menos glamoroso das grandes reestruturações: a racionalidade financeira sobrepondo-se à herança industrial.
O fim de uma era em Osceola
A fábrica de Osceola, responsável pela produção de motores, transmissões e componentes estratégicos, fechará suas portas até o final de 2026, deixando cerca de 200 trabalhadores sem emprego. Durante anos, foi neste solo que nasceram os blocos que deram vida à renascença da Indian moderna. Com a nova organização, a produção será transferida para Spirit Lake, no Iowa, unidade que integra o novo perímetro da Indian independente sob o controle do fundo Carolwood LP. Logisticamente, a mudança faz sentido para uma marca que agora precisa caminhar com as próprias pernas, mas o impacto social na comunidade de Wisconsin é uma mancha difícil de apagar.

Polaris: o foco no lucro certo
A venda da maioria da Indian confirma o novo Norte da Polaris: focar em veículos off-road, náutica e motos de neve — segmentos que hoje garantem retorno rápido e margens previsíveis. Para o conglomerado, a Indian havia deixado de se encaixar em uma lógica de crescimento acelerado. A separação, segundo o CEO da Polaris, permitirá que a marca de motos opere com “agilidade”, sem competir internamente por recursos com as divisões de quadriciclos e barcos.

Mike Kennedy e o desafio de 2027
Para capitanear esta travessia turbulenta, a escolha de Mike Kennedy foi estratégica. Com um currículo pesado na Harley-Davidson e na Vance & Hines, Kennedy assume uma estrutura de 900 colaboradores e o centro de R&D na Suíça. Sua missão é hercúlea: manter a alma da Indian viva em um mercado de cruisers que envelhece a cada dia. O cenário é hostil, e a recente decisão de descontinuar a FTR — o modelo mais inovador da gama — acendeu um alerta vermelho entre os entusiastas sobre qual será o verdadeiro DNA da marca daqui para frente.
O futuro da Indian
A Indian Motorcycle está em uma encruzilhada existencial. O fechamento de Osceola é um movimento de sobrevivência defensivo, não ofensivo. A entrada de capital privado pode ser a salvação, como já vimos na história da Triumph ou da Ducati, mas também pode sinalizar um desmantelamento progressivo em busca de lucro imediato. Mike Kennedy tem o conhecimento necessário para salvar a marca, mas precisará de mais do que nostalgia para vencer a crise das grandes custom. A Indian agora é livre, sim, mas a liberdade no mercado atual é um terreno perigoso e sem redes de proteção.