Levantamento da Abraciclo traça o perfil de quem anda de moto no Brasil, do motofretista ao viajante de fim de semana, e mostra o avanço acelerado das mulheres que pilotam
Ela está em quase 39 milhões de garagens no País, de casas simples na periferia de Manaus a apartamentos de grandes capitais do Sudeste. A moto virou parte da rotina de milhões de brasileiros: quem entrega comida à noite, quem leva o filho à escola pela manhã e quem sonha em rodar o país num fim de semana livre.
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Mas quem é, afinal, esse motociclista de 2026? Os números da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) ajudam a desenhar esse perfil e mostram uma indústria que vem correndo atrás para acompanhar as mudanças desse público.

O perfil do motociclista hoje
O Brasil apresenta em 2026 uma frota de 38,4 milhões de motocicletas em circulação, um crescimento de 91% em relação a 2012. Para colocar esse número em perspectiva, são 42,7 milhões de brasileiros habilitados na categoria A, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e compilados pela Abraciclo.
O perfil majoritário ainda é masculino, ou 74,6% dos habilitados, mas o dado que chama atenção é a velocidade da mudança. Em 2016, as mulheres representavam 6,2% da população feminina habilitada a pilotar; em 2025, esse número já havia subido para 9,2%.
Em termos absolutos, o crescimento de habilitadas nos últimos 15 anos foi de 141%, mais que o dobro do ritmo de crescimento entre os homens (69%) no mesmo período.
Para a Abraciclo, o salto reflete tanto a busca por mobilidade quanto a evolução dos próprios modelos. “A motocicleta consolidou-se como uma alternativa ágil, econômica e independente ao transporte público, reduzindo o tempo de deslocamento nas cidades”, avalia Sergio Oliveira, diretor-executivo da entidade.

Segundo ele, os produtos também ficaram mais adaptados ao uso urbano: “Os modelos atuais estão mais práticos e confortáveis, especialmente os equipados com câmbio CVT, que simplifica a pilotagem ao eliminar a troca de marchas”, explica, além da inclusão de compartimentos sob o banco e porta-objetos, o que trouxe a conveniência ideal para a rotina das motociclistas no dia a dia das cidades.
A entidade também projeta que esse movimento progrida. “A tendência é de continuidade no crescimento da participação do público feminino entre os usuários de motocicletas”, afirma Oliveira, atribuindo esse avanço à necessidade cada vez maior de mobilidade urbana eficiente, à busca por mais autonomia nos deslocamentos, a oportunidades de empreendedorismo e ao uso da moto para o lazer.
A faixa etária que mais pilota está entre 31 e 40 anos: 35,5% da população brasileira nessa idade têm habilitação para moto, a maior proporção entre todas as faixas etárias. Na sequência vêm os grupos de 41 a 50 anos (32,1%) e um empate técnico entre os mais jovens, de 18 a 30 anos, e os mais experientes, de 51 a 60 (ambos em 23,2%).
Esse motociclista também não está distribuído igualmente pelo mapa. Nas regiões Norte e Nordeste, a moto responde por 50,7% e 46,3% de toda a frota de veículos, respectivamente, praticamente uma moto para cada carro ou ônibus na rua.
Já no Sudeste e no Sul, mais motorizados e com transporte público mais consolidado, essa participação cai para 22,8% e 19,9%. Capitais como Boa Vista (81,3% da frota) e Manaus (62,2%) mostram como a moto é, antes de tudo, um meio de transporte essencial e não um item de lazer para boa parte do país.

Esse motociclista também está cada vez mais presente na própria cadeia produtiva do setor. Os empregos formais gerados pela indústria de duas rodas passaram de 123,9 mil, em 2015, para 155 mil em 2024.
Entre esses trabalhadores, a faixa de 30 a 39 anos é a mais representativa (27,9% do total), seguida de perto pelos jovens de 18 a 24 anos (23,2%). A presença feminina no emprego formal do setor, hoje em 27,5%, também cresceu de forma discreta, mas constante, na última década, um reflexo, ainda que pequeno, da mesma transformação observada entre quem pilota.
Como a motocicleta está sendo utilizada
Se o perfil do motociclista mudou, o uso da motocicleta também. A produção nacional por categoria em 2025 revela o que já era intuitivo para quem vive nas ruas das grandes cidades: motos da categoria street — simples, econômicas, sem carenagem, pensadas para o uso diário e profissional — respondem por 50,8% de tudo o que sai das fábricas, seguidas por modelos trail, versáteis para asfalto e terra (21%), e por scooter e motonetas, voltadas à mobilidade urbana, que somam outros 22% da produção. Motos de lazer ou alta performance, como as super sport e touring, não passam de 1% da produção somada.
Por trás dessa estatística está uma realidade que a pandemia deixou evidente: os motoentregadores. Em 2020, quando o país enfrentava uma das maiores crises sanitárias de sua história, foram os motofretistas que mantiveram a logística de entrega de itens essenciais, como mantimentos e remédios, e ganharam da opinião pública o apelido de “heróis da pandemia”.

A fabricação pensando nesse público, segundo a Abraciclo, não é exatamente segmentada, mas atende às mesmas exigências dele. “Embora algumas montadoras desenvolvam versões específicas voltadas ao uso profissional, as motocicletas atualmente são projetadas para atender a diversos requisitos de desempenho, conforto, ergonomia, eficiência no consumo, respeito ao meio ambiente, confiabilidade mecânica, segurança ativa/passiva, independentemente do perfil do consumidor”, explica Oliveira. Para ele, posição de pilotagem, massa, autonomia, robustez e facilidade de manutenção estão entre os aspectos considerados no desenvolvimento de um modelo, beneficiando tanto o usuário profissional quanto quem usa a moto no dia a dia.
Esse uso profissional convive, na outra ponta, com quem enxerga a moto como estilo de vida: motociclistas que fazem viagens de fim de semana em modelos big trail ou touring, ou que buscam o visual retrô das clássicas e café racer.
É um mercado plural, que vai do ciclomotor até máquinas de mais de 450 cilindradas, que hoje correspondem a 2,7% da produção nacional.
Entre 2021 e 2025, aliás, a faixa de 161 a 449 cilindradas viveu uma recuperação em forma de V: caiu de 19,3% da produção, em 2021, para 16,5% em 2023, e voltou a subir até 19,2% em 2025, praticamente o mesmo patamar de quatro anos antes. O movimento sugere que a procura por motos um pouco mais potentes do que as de entrada, sem chegar ao segmento premium, esfriou durante dois anos e depois retomou sua força.
A cilindrada de até 160 cm³ segue soberana: mais de 78% de tudo que se fabrica no Brasil ainda está nessa faixa, comprovando que a moto brasileira típica é, antes de tudo, econômica e acessível, pensada para o trajeto do dia a dia, não para a velocidade.
Segurança e tecnologia: a indústria acompanha o motociclista
Historicamente, a indústria de duas rodas tem investido em segurança, acompanhando o crescimento do setor. Em 2008, foi produzida no Brasil a primeira motocicleta equipada com freios ABS. Em 2013, chegou a primeira moto nacional com sistema Start/Stop. Um ano depois, em 2014, o Contran publicou a Resolução 509/2014, que trata de freios ABS/CBS, com participação ativa da Abraciclo na discussão, um marco que, em 2019, se tornou obrigatoriedade: 100% das motocicletas fabricadas no Brasil passaram a sair de fábrica com ABS ou CBS de série.
Além dos freios CBS e ABS, hoje obrigatórios por lei conforme a cilindrada, o mercado já avançou para outras frentes de segurança. “O mercado incorpora novas soluções que protegem o condutor. É o caso do controle de tração (TCS), agora presente desde scooter urbanos e em motos de média e alta cilindrada, e dos modernos sistemas de iluminação em LED, que ampliam a visibilidade do veículo no trânsito”, descreve o diretor-executivo da Abraciclo. Para ele, essas inovações, juntas, tornam a pilotagem mais segura.

A segurança viária também é um dos pilares de atuação da entidade. Desde sua fundação, em 1976, a Abraciclo realiza uma série de ações voltadas a educação e conscientização dos motociclistas. Mais recentemente, em 2021, a entidade lançou a campanha “Salve o entregador”, voltada à segurança de quem tem a moto como ferramenta de trabalho, seguida em 2022 e 2023 pelo “Pit stop educativo para motociclistas, motofretistas e entregadores”.
A inovação tecnológica também passou por caminhos menos óbvios. Em 2008, o Brasil viu nascer a primeira motocicleta bicombustível do mundo, produzida em Manaus.
A estratégia de produzir motocicletas no Polo Industrial de Manaus não é casual. Hoje, a região abriga os principais fabricantes globais de motocicletas, se tornando o maior polo de produção de duas rodas fora do eixo asiático e representando uma parcela relevante do faturamento e dos empregos gerados.
O retrato que se desenha
Some-se a isso um dado que a própria indústria já reconhece: o segmento de duas rodas movimenta hoje R$ 44,8 bilhões por ano no Brasil e emprega, somando o Polo Industrial de Manaus e a cadeia nacional, mais de 155 mil pessoas diretamente. É um setor que cresce puxado por um público em transformação: mais diverso, mais espalhado pelo país e, cada vez mais, também, feminino.

Do motofretista que roda o dia inteiro entre bairros até quem guarda a moto para os fins de semana de estrada, a motocicleta brasileira de hoje é, sobretudo, uma resposta às necessidades de um país continental, e a indústria, pelo visto, está prestando atenção nessas tendências.
