O motociclismo brasileiro vive uma mudança silenciosa, mas cada vez mais visível: o crescimento da presença feminina nas fábricas, nas concessionárias e, principalmente, nas ruas. Hoje, mais de 10 milhões de mulheres estão habilitadas para conduzir motocicletas no país, refletindo um avanço consistente na participação feminina no setor de duas rodas.
Dados analisados pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares mostram que o número de habilitações concedidas às mulheres cresceu 64% na última década. Em 2015, o Brasil registrava 6,4 milhões de motociclistas do sexo feminino. Em 2024, esse total chegou a 10,6 milhões.

Embora ainda representem cerca de 25% dos condutores com habilitação na categoria A — que permite pilotar veículos de duas ou três rodas — as mulheres avançam em ritmo mais acelerado que os homens. No mesmo período, o número de habilitações masculinas aumentou 35%.
Presença feminina também cresce nas fábricas
A expansão da participação feminina não se limita às ruas. Dentro da indústria, o crescimento também é expressivo. No Polo Industrial de Manaus, a presença de mulheres nas fabricantes de motocicletas, bicicletas, peças e acessórios mais que dobrou nos últimos anos.
De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego analisados pela Abraciclo, o número de colaboradoras nas empresas do setor saltou de 1.511 em 2015 para 3.134 em 2024, um aumento de 107%.

Hoje, as mulheres representam cerca de 17% da força de trabalho nessas fabricantes. No mesmo período, o número de homens empregados nas empresas também cresceu, passando de 9.817 para 15.250 trabalhadores.
Ao todo, o setor de duas rodas no Brasil emprega atualmente cerca de 154 mil profissionais em fábricas, concessionárias, lojas e serviços de manutenção. Desse total, mais de 42 mil são mulheres.
Histórias que refletem essa transformação
Por trás dos números, existem trajetórias que ilustram essa mudança de cenário dentro do motociclismo e da indústria.
Uma delas é a de Joelma Costa, que atua na área de gestão de pessoas e hoje conhece cada etapa da produção de bicicletas. “Antes, eu não sabia o que eram um selim, um garfo ou uma pedivela. Hoje entendo todo o processo de fabricação e tenho orgulho de trabalhar com um produto que promove saúde e qualidade de vida”, afirma.

Nas linhas de produção, o cuidado com os detalhes também se destaca. Rejane da Silva trabalha na adesivagem de bicicletas, atividade que exige precisão e técnica para garantir acabamento de alto padrão.
Já Misleide Silva atua em uma área administrativa estratégica e destaca que a presença feminina ajuda a fortalecer a diversidade e a visão de gestão dentro das empresas. Para ela, o avanço das mulheres mostra que competência e preparo não têm gênero.
Mulheres dominam cada vez mais as ruas
A evolução do motociclismo feminino também aparece no perfil das novas motociclistas brasileiras.
Entre as mulheres habilitadas, a maior concentração está na faixa de 31 a 40 anos, com mais de 3,6 milhões de condutoras. Na sequência aparecem as motociclistas entre 41 e 50 anos, com cerca de 2,5 milhões de habilitações registradas.
Histórias pessoais ajudam a ilustrar esse movimento. A gerente de tecnologia Laura Schneider, por exemplo, tirou a carteira de moto recentemente e passou a utilizar o veículo no dia a dia. O entusiasmo foi tão grande que ela já realizou diversos cursos de pilotagem para aprimorar suas habilidades.
“Pilotar exige responsabilidade, atenção constante e respeito à vida. Agora um dos meus sonhos é pilotar uma moto esportiva em um autódromo”, conta.
Paixão pelas motos inspira novas gerações
Entre as motociclistas que transformaram a paixão em estilo de vida está Geise Pinheiro Gobatto, profissional de marketing do interior de São Paulo. A relação com as motos começou ainda na adolescência, quando ela e a irmã pilotavam escondidas a moto do pai.
Habilitada desde 2009, Geise realizou o sonho de ter uma moto da Kawasaki em 2022, começando com uma Ninja 400 e evoluindo posteriormente para uma Ninja ZX-4R. “Quanto mais eu me aproximava desse universo, mais percebia que não queria apenas admirar. Eu queria viver isso”, relata.

Outras histórias ajudam a ilustrar essa mudança de perfil entre as motociclistas brasileiras. A empresária Juliana Crepaldi, de Jundiaí (SP), por exemplo, passou anos acompanhando o marido em viagens de moto até decidir assumir o guidão.
Hoje habilitada, ela pilota após ter vivido durante muito tempo o motociclismo como garupa de uma Kawasaki Vulcan 900. “Em uma viagem eu pensei: se acontecer alguma coisa com ele, como saímos daqui? Foi ali que entendi que precisava aprender a pilotar.”
Comunidades e exemplos fortalecem o motociclismo feminino
O crescimento do número de mulheres pilotando também é impulsionado por comunidades que incentivam a participação feminina no motociclismo. Um exemplo é o grupo Gurias da Kawa, criado no Rio Grande do Sul para reunir motociclistas e fortalecer uma rede de apoio entre mulheres que compartilham a mesma paixão.
No esporte, algumas pilotos se tornaram referência para novas gerações. É o caso de Moara Sacilotti, que alcançou a marca de 25 anos competindo no Rally dos Sertões, consolidando-se como uma das principais representantes femininas do rally brasileiro.

Outro nome que chama atenção é Stephany Fany, conhecida como “rainha do wheeling”, que vem ganhando destaque em apresentações e competições da modalidade.
Uma realidade cada vez mais presente
Para executivas do setor, como Sonia Harue Ando, diretora comercial e de marketing da Kawasaki no Brasil, o crescimento do motociclismo feminino reflete uma transformação permanente no perfil dos motociclistas.

Segundo ela, hoje é cada vez mais comum ver mulheres estudando modelos, participando de cursos e pilotando diferentes categorias de motos com segurança e conhecimento.
Nesse cenário, o motociclismo feminino deixa de ser uma tendência e se consolida como uma realidade cada vez mais presente nas ruas, nas pistas e na indústria de duas rodas do Brasil.