Kawasaki Versys-X 300: Amor à segunda vista

Autor: Marcelo Barros


Dia 8 de novembro de 2016. Enquanto acompanhava os lançamentos das fabricantes de moto nos corredores extensos do Salão de Milão (EICMA), o mais importante evento do setor no mundo, me surpreendi quando a Kawasaki tirou a cobertura da Versys-X 300, uma novidade inesperada, pelo menos para mim. Finalmente uma trail com motor bicilíndrico! Um pedido que era repetido nas redes sociais como um mantra por muitos. Mas restava ainda saber se aquele “desejo atendido” era realmente bom.

Dez meses depois, me reencontrei com ela, pintada no mesmo atraente “verde Kawasaki” (Lime Green), em território brasileiro para um teste completo, com uso urbano, na estrada com e sem garupa e claro, bastante terra para provar se o ‘X’ no seu nome é de aventureira! A Versys-X 300 se diferencia das demais trail vendidas atualmente no Brasil pelo seu conjunto mais refinado. O seu visual divide opiniões e lembra muito a KLR 650, que nunca foi vendida por aqui.

Ela amplia a família de baixa cilindrada da Kawasaki, se juntando à esportiva Ninja 300 e a naked Z300, com quem compartilha o mesmo motor bicilíndrico em linha, arrefecido a líquido, com 296 cm³, que rendeu 33,65 cv de potência máxima, com pico de torque de 2,4 kgf.m em nosso dinamômetro. O motor tem embreagem deslizante, que evita travamento da roda em fortes reduções. Ela pesa 175 kg na versão com ABS e 184 kg na versão Tourer, equipada, que avaliamos. No seu tanque, 17 litros de capacidade, o que garante boa autonomia. Na nossa média de consumo durante o teste, que não passou dos 20 km/l, a autonomia ficou em 330 km.

O X no nome tem explicação. Diferente das outras Versys (650 e 1000) que são crossover com rodas aro 17” e pneus para alto desempenho no asfalto, a Versys-X 300 é, de longe, a mais versátil das 300 da marca. Tem rodas raiadas em alumínio polido — aro 19” na dianteira —, e pneus de uso misto. As suspensões estão calibradas para um bom desempenho no fora de estrada, apesar do curso reduzido estar mais para uma crossover (como as Versys maiores) do que para uma trail, com 130 mm na dianteira e 148 mm na traseira.

Tecnicamente e pelo preço, hoje ela não tem concorrente direta no Brasil. Ela está um nível acima de Yamaha Ténéré 250 e Honda XRE 300 e tem proposta diferente da Honda CB 500X, que com roda de 17” e pneu mais on-road prefere asfalto. Enquanto não chegam nas concessionárias BMW G 310 GS (prevista para o primeiro semestre de 2018) e Suzuki V-Strom 250 (sem previsão), ela está sem rival e servindo como opção para quem tem as trail 250 e 300 e está em busca de mais desempenho, conforto e segurança.

Nos primeiros quilômetros com a nova trail a sensação foi de… Estranheza! As motos trail nessa faixa de cilindrada, monocilíndricas, são conhecidas pelo bom torque em baixas rotações. Já nesta Kawasaki, o motor bicilíndrico em linha tem como característica o desempenho em altas rotações, e, por isso, foi necessário rodar um tempo com a moto para entender que é preciso estar sempre dentro de uma faixa de giro mais elevada para transpor obstáculos no fora de estrada ou para manter a moto respondendo bem nas retomadas. Algo a que facilmente você se adapta, mas pode afastar os fãs mais conservadores do estilo trail. Mas afirmar que ela é menos divertida ou menos ágil seria um erro.

O chassi backbone utiliza o motor como parte da estrutura e a moto não tem protetor de cárter de fábrica. Por isso é necessário um pouco de cuidado antes de se aventurar na terra e em trilhas para não bater e danificar a moto por baixo. Ela é alta, com 180 mm de altura mínima e 845 mm de altura do assento, e conseguimos fazer bastante com ela. Para os mais aventureiros, o protetor de cárter é um acessório bem recomendado.

Os freios trabalham com eficiência — a versão avaliada tem o ABS —, sendo o traseiro devidamente calibrado para ser mais progressivo, com “mordida mais mansa” que as irmãs 300 do asfalto, evitando travamentos constantes nas frenagens em terrenos com baixa aderência. Trabalham muito bem tanto no asfalto quanto na terra, garantindo a segurança do motociclista. Ajudam os bem escolhidos pneus Pirelli modelo MT60, um autêntico pneu misto e que é tubeless (sem câmara), mas que usa câmara na Versys-X 300, já que as rodas são raiadas. Eu explico. Rodas de liga leve não combinariam com o conceito mais aventureiro que a Kawasaki pensou para essa moto (opção de roda que a BMW usou na G 310 GS) e rodas raiadas para pneu sem câmara deixariam ela mais cara, o que seria um erro… As rodas são em alumínio, sem pintura. Se fossem pintados de preto, a moto ganharia muito no visual.

Rodamos cerca de mil quilômetros nesta avaliação e a moto não deixou a desejar em nenhuma condição de uso. As suspensões também estão bem acertadas, sendo que na traseira, monoamortecida, existe o ajuste de pré-carga, que deve ser usado quando você levar garupa e bagagem para a moto manter sua estabilidade, principalmente em curvas. O motor, como já dissemos, gosta de alta rotação, e na estrada basta colocar na sexta marcha e esquecer o câmbio. O motor é bem elástico e anda bem a 120 km/h e até uns 50 km/h sem precisar de redução da marcha. Na estrada é onde o bicilíndrico mostra seu poder de fogo. Sem precisar reduzir marchas, é possível facilmente realizar ultrapassagens, mesmo com a moto carregada.

Na versão Tourer as malas laterais são práticas, mas atrapalham na hora de andar entre os carros e não tem encaixe com engate rápido na moto. Elas são aparafusadas e só podem ser removidas com ferramenta. Além das malas, os protetores de mão, de motor e carenagens são úteis, assim como os faróis auxiliares, em LED, que complementam a luz do farol, que poderia ser em LED, mas se nem as Versys maiores ainda têm essa iluminação, melhor esperar…

A Versys-X 300 é bem confortável, tanto para piloto quanto para passageiro, tem desempenho para andar rápido na estrada, suas suspensões, pneus e freios estão acertados para andar bem no fora de estrada e o motor bicilíndrico exige adaptação para quem está acostumado com as trail convencionais. Já está nas concessionárias da marca em três versões e os preços são: Versys-X 300; R$ 22 900. Versys-X 300 ABS; R$ 24 990 e Versys-X 300 Tourer ABS; R$ 26 990.

Para as 200 primeiras unidades vendidas, a marca está trabalhando com preços promocionais. A Versys-X 300 sem ABS sai por R$ 20 990 nas primeiras 70 unidades, a com ABS custa R$ 23 990 em 80 unidades e as primeiras 50 unidades da Tourer serão vendidas por R$ 25 990. Todos os preços divulgados estão sem o valor do frete, que varia por região do país. Consulte na concessionária mais próxima de você o preço exato. O valor máximo do frete é de R$ 1 216,17. Você achou salgado o preço? Nós também. Esperávamos algo mais competitivo…

Mas nem pense em comprar a Versys-X 300 básica e transformá-la em Tourer, com acessórios comprados na concessionária. Todo esse kit que diferencia a equipada da básica custa nas revendas Kawasaki (sente-se) R$ 15 675. Inacreditáveis 60,3% do valor da moto! Para quem tem Ténéré 250 ou XRE 300, seria uma alternativa para se manter nas trail, se adaptando a tocada do bicilíndrico. A rede Kawasaki ainda é reduzida e vale lembrar que a BMW G 310 GS, também vista lá no mesmo Salão de Milão em 2016, foi apresentada no nosso Salão Duas Rodas e está chegando…

Conclusão

A Kawasaki abriu o caminho das “trail premium” no Brasil com a Versys-X 300, antes da BMW G 310 GS. Andamos na versão Tourer, bem confortável, recheada de acessórios. Eu deixaria para instalar as malas laterais apenas para viajar, pois atrapalham na cidade. Um test-ride breve pode não convencer o cara da Ténéré 250 e da XRE 300 de que ela é uma opção com melhor conjunto, pelas respostas ‘diferentes’ do motor. Se tivesse andado pouco com ela talvez não a tivesse entendido. No começo estranhei o motor, depois, quanto mais eu andava, mais me divertia na terra e na estrada, onde o motor dá show. Me convenceu.

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Fotos: Rafael Munhoz


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