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Especial Mulheres e Motos: A origem

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  • Publicado: 28/11/2018
  • Atualizado: 28/11/2018 as 12:55
  • Por: Marcelo Barros

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A motocicleta não foi criada do zero na área de transportes de duas rodas e, sim, evoluiu da antiga bicicleta. As mulheres adoravam as bicicletas pela mobilidade e liberdade que permitiam. Susan B. Anthony disse uma vez: “a bicicleta faz mais pela emancipação das mulheres do que vários movimentos no mundo”. As mulheres gostavam das motos tanto quanto de bicicletas, afinal, elas eram econômicas e divertidas.

Em 1915, as motocicletas Indian ofereciam proteções dianteiras e traseiras, e como estes acessórios amorteciam possíveis pequenas batidas durante o passeio, as pessoas começaram a considerar as viagens de moto como uma opção real e viável. Naquele ano, uma equipe de mãe e filha, Avis e Effie Hotchkiss, extrapolou “um pouquinho” e viajou de Nova York para São Francisco em uma motocicleta Harley-Davidson com sidecar. Elas não tomaram o caminho direto. Em vez disso, vagaram por rotas alternativas cobrindo quase 10 mil quilômetros!

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No ano seguinte, duas mulheres da então chamada “sociedade” na faixa dos 20 anos, as irmãs Adeline e Augusta van Buren, compraram duas Indian Power Plus. E foi aí que a mesa começou a virar e podemos dizer que as mulheres começaram a fazer uma bela história motociclística. Em 1916, as irmãs Van Buren, de Nova York (analogamente a Effie e Avis), partiram para provar que as mulheres deveriam ser usadas em uma possível necessidade de guerra (Primeira Grande Guerra), e, para mostrar o seu potencial, decidiram atravessar os Estados Unidos.

Adeline e Augusta vieram de uma família não convencional para a época, por isso não foi um choque quando eles apareceram com seu par de motocicletas Indian empenhadas em provar que as mulheres poderiam pilotar tão bem quanto os homens e inclusive participar da guerra como mensageiras motorizadas. Ao contrário das mulheres Hotchkiss, elas estavam decididas em defender um ponto político.

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Então elas partiram e completaram seu passeio transcontinental levando quase dois meses de Nova York a São Francisco, e enfrentaram não somente o terreno difícil das estradas que ligavam as duas costas como também o preconceito da lei e das pessoas que as discriminavam por serem mulheres. De acordo com sua biografia no Hall da Fama, elas foram presas por usarem roupas de montaria (calças compridas) em algumas ocasiões.

No Colorado, elas fizeram sua marca oficial nos livros de história, tornando-se as primeiras mulheres a subir a desafiadora Pikes Peak apenas por diversão, e não em qualquer tipo de competição. Na verdade, elas foram as primeiras mulheres a realizar a tarefa em qualquer tipo de transporte motorizado. Sua missão transcontinental de três meses de duração começou no dia 2 de setembro de 1916.

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O estardalhaço da mídia em torno de seus esforços fez a viagem parecer mais como uma viagem de férias do que uma declaração política ou uma realização histórica para a qual ela se destinava. Depois disso, não foi surpresa, o pedido de Adeline para se juntar ao exército, zona então exclusiva para homens, foi negado, mas a questão foi levantada e tornou o assunto mundialmente conhecido pela mídia.

Enquanto Adeline se tornou advogada em Nova York, Augusta tornou-se piloto e se juntou ao clube de aviação feminino chamado 99s, que foi iniciado por Amelia Earhart (pioneira na aviação dos Estados Unidos, autora e defensora dos direitos das mulheres). Os 99s foram considerados a inspiração para o clube de motociclismo feminino “Motor Maids MC”, conforme consta na biografia das irmãs no Hall da Fama da AMA (American Motorcycle Association). As duas irmãs foram reconhecidas pelo Hall da Fama da AMA Motorcycle em 2002, e também pelo Sturgis Hall of Fame, em 2003.

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Na década de 1920, a Harley-Davidson publicou um romance chamado “The Fan”. Patrocinou Vivian Wales em uma viagem de 8 mil quilômetros até uma fábrica da Harley. Outra heroína das motocicletas foi Bessie Stringfield, também conhecida como a Rainha das Motocicletas de Miami. Ela fez oito viagens solo cross-country enfrentando todas as intempéries possíveis em rotas bastante inóspitas. Bessie começou com dois grandes pontos contra ela naquela época: ela era mulher e afro-americana. No começo, ela nem conseguiu uma licença de motocicleta em Miami, Flórida. No entanto, policiais intercederam em seu nome e permitiram que ela tirasse o tão cobiçado documento para suas aventuras em duas rodas.

Em 1940, os Estados Unidos tiveram seu primeiro clube de motociclismo feminino, The Motor Maids. Hoje, existem inúmeros clubes desse tipo. Quem quiser mais dados, histórias de mulheres e motocicletas pode ler o livro Hear Me Roar: Women, Motorcycles, and the Rapture of the Road, algo como “Escute-me Rugir: Mulheres, Motocicletas e o Êxtase da Estrada”.
Há várias outras histórias envolvendo mulheres motociclistas que contarei em outras oportunidades. Este é só o começo. Keep riding!

Essa é a primeira de uma série de quatro reportagens sobre mulheres e motos. Acompanhe as atualizações do site para ver todas!

Texto: Roberto Severo